Uma série de sons casuais

Quando se fala em veículos de propagação de conceitos, produtos ou modos de pensar, um dos primeiros que me vem à cabeça é a televisão. Por muito que se ouça muita gente dizer que substituiu o televisor pelo ecrã de computador e os programas com conteúdos controlados pela interactividade da internet, o que é certo é que as famílias ainda se reúnem à volta da televisão e não do computador. Prova disso é o poder que os anúncios televisivos ainda têm em detrimento dos restantes formatos.
Sendo um meio tão preponderante de divulgação, não é surpresa que desenvolva um papel importante na divulgação de música através dos formatos mais variados. Não falo somente de canais de música, como o VH1 ou a MTV a MTV? mas isto ainda passa música?. Refiro-me, antes, aos formatos em que a música é o complemento necessário para que algo resulte. E sublinhe-se, desde já, que ser complementar não é sinónimo de ser acessório.
Pensemos, então, no formato que tem vindo a ganhar terreno nos últimos anos e a arrecadar milhões de espectadores: as séries televisivas. Nem precisamos de pensar em cenas específicas para entender a importância da música ou sequer conhecer a série. Uma pessoa que nunca tenha visto os Simpsons na vida conhece, quase de certeza, a música de genérico, e consegue associá-la à série. E quando falo dos Simpsons, falo também de genéricos adaptados de músicas já existentes, como o de Roswell, de Friends ou de Dr. House. Por mais inócuo que pareça, este é um elemento que define, sem dúvida, a identidade da série.
 
Com a sua circulação em massa, por todo o mundo (com certeza já passaram por aquele momento em que cada um exibe orgulhosamente a sua lista de séries e as recomenda com entusiasmo a amigos e conhecidos), o formato série tem-se revelado altamente rentável, de tal modo que vários actores de cinema já se infiltraram no trabalho televisivo. Vejamos o exemplo de Zooey Deschanel (New Girl/Jessie e os Rapazes), Ashton Kutcher (Two and a Half Men/Dois Homens e Meio) e Kate Winslet (Mildred Pierce). Com a quantidade suficiente de fundos, uma série vê-se em posição de poder investir numa banda sonora original.
Há que fazer aqui a distinção entre as bandas sonoras originas, ou Original Scores, das listas de músicas usadas na série com autorização dos seus autores, as soundtracks. Programas como a Anatomia de Grey, por exemplo, apostam muito na segunda opção, sendo mesmo muitas músicas já irremediavelmente associadas à série (lembremo-nos da How To Safe a Life, dos The Fray, ou da Breathe In, BreatheOut, de Mat Kearney). Contudo, a importância que mais me interessa aqui sublinhar é a das bandas sonoras originais.
Entre as séries que apostam em bandas sonoras originais estão Breaking Bad (Dave Porter), Heroes (Wendy Melvoin e Lisa Coleman), Dexter (Daniel Licht), Mad Men (David Carbonara), True Blood (Nathan Barr), Supernatural (Jay Greeska), Doctor Who (Murray Gold e Bem Foster), Fringe (Michael Giacchino, Chris Tilton e Chad Seiter) eDownton Abbey (John Lunn). Mais do que esperavam? Há muitas mais, e cada uma merece, na minha opinião, uma audição atenta.
 
Numa altura em que se discute o 3D como uma forma de intensificar a experiência visual, de modo a oferecer uma melhor experiência na criação de ambientes, julgo que não se pode ignorar a função decisiva que uma banda sonora original, feita à medida e de propósito para aquela história, tem precisamente neste aspecto. É quase como uma casa que tem um cheiro particular. Sabem, quando estão algum tempo fora de casa e, quando voltam, notam que “cheira a casa”? Ou, quando vão a casa de um amigo, reconhecem imediatamente o odor que circula no ar? Não conseguimos muito bem explicar ou destrinçar o que é, mas sabemos que cheira àquele espaço. Penso que se passa algo semelhante com as séries e as suas bandas sonoras. Quando vemos uma cena, nem nos apercebemos que estamos a absorver a música, porque ela parece fundir-se de tal modo com a cena que não as conseguimos separar. Contudo, se nos vendassem os olhos e nos pusessem a ouvir a banda sonora da nossa série favorita, acabaríamos por nos aperceber de que aquela melodia correspondia àquela história, da mesma maneira que o cheiro da minha casa corresponde a mim e eu reconheceria onde estava, mesmo de olhos vendados.
Ainda que possam passar despercebidas, as bandas sonoras desempenham um papel insubstituível, arriscar-me-ia a dizer bem mais poderoso que o 3D, na consolidação do poder dramático de uma cena.

É com particular prazer que acompanho a difusão desta prática e desejo que se mantenha, pela fantástica intervenção que tem na qualidade das séries.

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Sobre sofialivronoronha

Licenciada em Ciências da Comunicação e mestre em Audiovisual e Multimédia. Com sonhos tão vastos que às vezes tem medo de os perder.
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