Trilogia da Morte

A Morte não é um tema fácil de expor. Nem todos o conseguem fazer tão espetacularmente como o realizador mexicano Alexandre Gonzalez Iñarritu. Associado a Guillermo Arriaga, criou 3 dos melhores e mais duros filmes sobre a dificuldade e o terror da Morte: Amores Perros, 21 Grams e Babel, conhecidos como Trilogia da Morte. Iñarritu disse em entrevistas que os seus filmes não giram em torno da morte mas sim sobre as casualidades da vida. De facto, nestes filmes vemos muitas formas de vida, vemos vidas em várias partes do Mundo. Mas, em todas elas, e em cada uma daquelas pessoas, vemos a dor da perda e o sofrimento.

A sua primeira longa-metragem Amores Perros de 2000 foi rodada na Cidade do México. Partindo de uma cena inicial de um acidente de automóvel, a história é desmontada em três partes, três mundos diferentes que confluem nesse momento do acidente. Temos Otavio (Gael García Bernal) e Susana (Vanessa Bauche), o rapaz apaixonado pela esposa do irmão, que se dedica às lutas de cães para conseguir juntar dinheiro suficiente para fugir com Susana. Otavio perde o cão no acidente, o dinheiro, e a mulher que ama. Temos Daniel (Álvaro Guerrero) e Valeria (Goya Toledo), o pai de família apaixonado pela modelo mais nova em quem embate o carro de Otavio. Como consequência do acidente Valeria perde a perna, arruinando a sua imagem e a sua carreira. Temos ainda El Chivo (Emilio Echeverria), um criminoso andrajoso que é contratado para matar um homem, ato interrompido no momento do acidente. É um homem com muito pouco, dedicado aos cães que cria, e que procura comunicar com a filha que abandonou em criança.
Mais do que a morte, vemos a perda: todos os personagens perdem algo que lhes é querido. Todos vêm ser-lhes destituído o futuro que idealizaram. Todos esquecem a compaixão quando levados ao extremo. No filme vemos as ruas, vemos a cidade e os gangs. Facilmente se consegue imaginar estas histórias a passarem-se em nos nossos dias. Três mundos tão diferentes que existem quase independentes num mesmo sítio, ignorando-se mutuamente, cruzando-se inevitavelmente.

No seu segundo filme, 21 Grams (2003), temos o mesmo estilo narrativo fragmentado. Desta vez com uma história passada nos EUA, temos um filme mais “limpo”, mais americano. A morte tem uma presença muito mais intensa neste filme. Paul Rivers (Sean Penn) é um homem doente que precisa de um transplante de coração para sobreviver. Cristina Peck (Naomi Watts) é a mulher do homem que morreu e cujo coração salvou Paul. Jack Jordan (Benicio del Toro) é o ex-presidiário que acidentalmente atropelou o marido de Cristina e as suas duas filhas. Vemos a forma desastrosa como Cristina lida com a morte do seu marido. Vemos o caminho de arrependimento de Jack e vemos uma nova demanda numa vida pouco desejada de Paul. Vemos o desespero levado ao extremo de todos eles e, em cada um, o seu calvário na sua busca de paz e redenção.
Este é, dos três, o meu filme favorito. Destaque para a fantástica interpretação de Benicio del Toro, que lhe mereceu uma nomeação para o Oscar de melhor ator secundário.

A concluir esta trilogia, saiu em 2006 o filme Babel, talvez o mais ambicioso dos três filmes. Mais uma vez apresenta-nos uma história fragmentada, passada em quatro locais distintos. Ao longo do filme percebemos como todas as histórias se relacionam e percebemos finalmente a sua ordem sequencial. Algures em Marrocos, Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett) viajam num autocarro turístico. Inesperadamente Susan é atingida por uma bala vinda de alguém desconhecido. No cimo de um monte dois garotos brincam com uma arma que encontram e atiram no autocarro onde estava o casal americano. Outra parte da ação passa-se na América: os filhos de Richard e Susan ficaram ao cuidado de uma ama mexicana (Adriana Barraza) que os leva com ela ao casamento do filho no México. Uma outra parte decorre no japão, onde Chieko (Rinko Kikucho), uma jovem surda-muda, procura encontrar-se emocional e sexualmente.
É um filme nervoso; sente-se no filme a dificuldade em comunicar – ou devido à língua diferente num país estrangeiro, ou devido à posição social inferior e ao preconceito e, mesmo levado ao extremo, por incapacidade física. Vemos de novo as falhas nas relações humanas, a crueldade nos diferentes mundos, os mesmos sentimentos expostos no momento da eventualidade da perda, independentemente do meio onde se está.
São três filmes execionais. Os mundos são feios e as imagens são belas; os personagens são complexos e muitas vezes odiáveis. A Morte está lá, sob tantas faces. Tudo parece tão real, tão explícito. Notam-se detalhes deliciosos, nada acidentais. Com uma estética peculiar Iñarritu faz um retrato verídico da vida e da morte, que se percebe ser semelhante no México, nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte do Mundo.
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