Uma questão de estilo: a glória de Gangnam

Há uns dias atrás, embalada pelo monótono zapping entre canais, dei por mim a parar num ao qual já não dedico a minha atenção há uns anos acrescentados. Apesar de ter sido uma espectadora fiel da MTV durante grande parte da minha adolescência, hoje em dia consigo contar pelos dedos das mãos as vezes em que, numa breve passagem por lá, me deparei com música. Ora, o dia de que vos falo foi pontuado por um desses raros momentos. Surpresa, decidi voltar atrás e dar mais uma oportunidade ao canal de que outrora fui fã, mas rapidamente questionei se tinha mesmo contemplado o milagre. É que a música que estava a passar era oGangnam Style, que fica assim a meio caminho.
 
Antes que comecem a pensar que estou aqui a almofadar um discurso de ódio direccionado, importa explicar por que considero que o seu sucesso tem a ver com muita coisa exterior à música.
Embora o nome de PSY (nome artístico de Park Jae-Sang) só tenha sido ouvido pelo mundo ocidental quando os ecos de Gangnam Style começaram a soar, o cantor e rapper sul-coreano não é um estreante na indústria. Tem já seis álbuns editados e uma carreira de sucesso no seu país natal.
 
Quando lançou o este single, nada seria capaz de prever o estrondoso sucesso que alcançaria. Chegou mesmo a suplantar a popularidade de Justin Bieber no YouTube, ao ultrapassar o milhar de milhão de visualizações a 16 de Janeiro deste ano. Tudo parece ainda mais improvável quando se tira um pouco de tempo para entender o que é, de facto, o Gangnam Style.
 
Gangnam é o nome de um distrito rico de Seul, a capital da Coreia do Sul, e o alvo de chacota da música de PSY. Em Gangnam, vivem aquelas que se consideram pessoas de alta sociedade, nomeadamente novos ricos que tentam desesperadamente integrar-se. Gangnam tem sido várias vezes comparado a Beverly Hills, estado da Califórnia, nos EUA.
 
De Gangnam para o mundo, o YouTube tem sido indicado como o principal responsável pela popularidade da música. Estamos já familiarizados com o poder deste canal no que diz respeito a fenómenos de popularidade que se estendem para lá da internet, como é o caso de Justin Bieber. E quem fala no cantor canadiano pode também nomear fenómenos estranhos e completamente aleatórios, como o Nyan Cat, o gato com corpo de poptart que navegava pelo universo, o Mr. Trololo, o barítono russo Eduard Anatolyevich Khil numa performance dos anos 70, ou mesmo Rebecca Black, que transformou Friday na música de chacota de todas as Sextas-Feiras. Uma coisa todos eles parecem ter em comum: tendem a pisar a fronteira entre o que o público em geral odeia e adora. Ou, melhor, são aquilo que o público adora odiar.
 
Gangnam Style tem tudo para se tornar num vídeo viral. Senão vejamos…
Em primeiro lugar, segue a mesma estratégia da Macarena, hit dos anos 90, ao reproduzir uma dança que toda a gente consegue fazer e imitar pelas festas de todo o mundo sem se preocupar em parecer ridículo porque, de qualquer forma, a dança é já um pouco ridícula por si própria.
Como não podia deixar de ser, reveste-se de um ritmo catchy, com uma batida que fica no ouvido, poucas variações e uma melodia pobre em harmonias.
O facto de não se entender a letra é, na minha opinião, uma grande vantagem, porque não distrai o ouvinte nem o faz questionar o que está a ser dito. Mesmo que esteja a papaguear uma série de disparates, o que interessa mesmo é a diversão e o ritmo.
Recorre ainda a algo que todos adoramos fazer, que é rir da troça que se faz dos outros, que vivem de maneira diferente. Lá de vez em quando, lá cedemos à mesquinhez de dizer “Oh, que ridículos que eles são!”
 
 
Gangnam Style poderia ser uma prova de que é possível fazer sucesso mundial sem se ter um contrato chorudo com uma produtora e sem se ser americano. Poder-se-ia pensar que esta tendência dos fenómenos do YouTube se estenderem muito para além da internet constitui uma grande vantagem para artistas emergentes um pouco por todo o mundo. Numa onda ainda mais optimista, poderíamos pensar que seria o princípio da descentralização dos grandes hits anglo-saxónicos. Mas penso que é demasiado cedo para falar disso.
Apesar de ter nascido na Coreia do Sul, não há nada no vídeo que se descole dos padrões de estilo jocoso dos LMFAO, por exemplo. Penso que, no final de contas, Gangnam Style acaba por ser mais um pedaço da fórmula americana de uma música de sucesso, com a particularidade de ser cantada noutra língua.
 
Sou levada a pensar que, no final de contas, a brincadeira do Gangnam Style fez a derradeira paródia de todo o mundo. Mas também acho que PSY não merece ser motivo de chacota ou desprezo por parte da indústria musical. Se dermos uma olhadela rápida aos últimos anos, recheados de músicas com letras sem sentido e artistas que se esticam (literal e não literalmente) até o limite, na tentativa de chocar mais, ou chamar mais a atenção do que o artista do lado, este fenómeno não me parece nada descabido. Desafio-vos mesmo a comparar a letra do Gangnam Style com o último hit de Christina AguileraYour Body (tentem a versão não censurada), ou a riqueza musical do single de PSY ao dos LMFAO, Sexy and I Know It. É um clássico caso de “descubra as diferenças”.
Pronto, está bem, talvez até tenha assistido ao milagre de ver e ouvir música na MTV. E, embora continue a saber-me a pouco, tenho de aceitar que a música já não sobrevive só de melodias e de bons músicos. Continua só a custar-me que esses dois factores basilares contem cada vez menos.
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Sobre sofialivronoronha

Licenciada em Ciências da Comunicação e mestre em Audiovisual e Multimédia. Com sonhos tão vastos que às vezes tem medo de os perder.
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