A estória do senhor governador (ou como é feio enganar as crianças…)

O governador do Banco de Portugal descreveu a crise a alunos do 2º ciclo como “um problema de gestão de semanada”.
Carlos Costa falava perante uma plateia de várias dezenas de alunos da Escola Básica e Secundária de Fontes Pereira de Melo
Questionado pelo Francisco, do 6º C, sobre “quais as razões para o país estar em crise”, o governador do Banco de Portugal (BdP) equiparou a atual situação portuguesa à de um aluno que “não mede bem a semanada que tem”:
“Imagina que chegas à quarta-feira e ficas sem dinheiro e até sábado andas a pedir emprestado. Ao fim de algum tempo começas a acumular dívidas e há um dia em que chegam à tua beira e dizem: Ou pagas ou não te emprestamos mais”, explicou.
“Quando isso acontece – continuou – vais ter junto dos teus pais ou padrinhos e dizes que te correu mal a vida, que tens uma dívida para pagar aos colegas e não tens dinheiro. E o teu pai diz-te: ‘Eu empresto-te, mas agora juizinho daqui para a frente, vais prestar-me contas todos os dias e isso é uma condição para te dar dinheiro para o dia seguinte’. Isto é um programa de ajustamento financeiro”.

O senhor governador esqueceu-se de um pormenor – os juros.

Portugal é o menino que tem uma casa à beira-mar e com um jardim belíssimo, que os amigos gostam de frequentar. Um deles sugeriu que ele comprasse espreguiçadeiras, chapéus-de-sol, mesas, para aproveitarem o sol, só era preciso tirar alguns canteiros onde plantavam legumes e aromáticas.
Este menino (Portugal) não tinha dinheiro para comprar isso tudo, ainda mais, depois tinha de comprar os legumes (na loja do amigo). “Não faz mal”, disse o amigo, “compras na loja do meu pai”, depois pagas como e quando fores capaz”.
Portugal gostou da “oferta”, foi pagando da sua mesada, mas, quando pensava que estava a diminuir a dívida, esta ia sempre aumentando todos os meses. O amigo fixava os juros cada vez mais altos. “São as leis do mercado”, dizia ele.
Chegou a uma altura em que a mesada já nem chegava para pagar os juros da dívida. O “amigo”, que escusado será dizer tinha a alcunha de “o alemão”, disse que lhe fazia um empréstimo, a que chamou “resgate” e Portugal pensou que não tinha outro remédio. Era preciso respeitar os “compromissos”. Então, para ir pagando os juros ao amigo alemão, Portugal começou a ir ao mealheiro dos seus irmãos a tirar da reforma dos avós, a pedir mais dinheiro aos pais…
Até que um dia, os irmãos, os pais, os avós, fartaram-se desta roubalheira e disseram a Portugal “tu pagas apenas o que deves, não vais pagar o que o teu amigo todos os meses acrescenta à dívida, a isso chama-se agiotagem e é um pecado mortal. Se queres amigos assim, mais vale teres inimigos…”

banqueiro

Nesta altura, Portugal ainda não decidiu fazer o que os seus lhe dizem. Mas esta situação é insustentável. Ele já está a trabalhar na loja do alemão, fica sem a semanada, o dinheiro vai todo para o “amigo”. E este ainda goza, dizendo que “ele gastou acima das suas possibilidades”.

Pois é, senhor governador! Quando contar uma história às crianças, omitir uma parte importante para a sua compreensão, é o mesmo que estar a enganá-las!

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