Purificação musical

Durante o Renascimento não só a opinião da Igreja pesava muito na música (sobretudo, claro, na religiosa) como também grande parte da produção dos compositores era de carácter religioso.

A música apenas instrumental ainda era menos valorizada que a música vocal e só a partir da segunda metade do século XV se começa a assistir a um crescimento da preservação dessa música através da escrita (mostrando assim que a música instrumental havia ganho importância). Este pouco valor dado à música instrumental é explicado pelo peso da Igreja porque a música instrumental é incapaz de transmitir o texto necessário para o serviço litúrgico.

No entanto, a música vocal tornava-se cada vez menos capaz de transmitir esse texto devido à sua complexidade e às técnicas usadas na sua criação. Isto acontece por várias razões. A música era escrita através da técnica contrapontística em que as harmonias resultam da sobreposição das vozes, isto é, em vez de haver uma melodia com acompanhamento existem várias melodias independentes que sobrepostas constituem a harmonia. O contraponto é assim “a arte de combinar melodias” (Walter Piston)

Uma vez que cada melodia é independente também ritmicamente, acontece que a recitação do texto não acontece simultaneamente em todas as vozes. Se tivermos em conta que por vezes associavam-se várias notas para apenas uma sílaba, era comum existirem peças a quatro, cinco, seis vozes ou mais, (ou a tantas vozes quanto os anos que a Rainha de Inglaterra completava na suposta data da estreia de Spem in Alium…) e por vezes cada voz recitava um texto diferente (às vezes em línguas diferentes!) tornava-se muito difícil perceber o texto especialmente se se tentasse apreciar a música.

Para além disto era comum comporem-se missas usando uma melodia já existente e combinar outras originais. Acontece que por vezes essas melodias eram ou pertenciam a canções profanas, algumas delas obscenas como “Entre vous filles de quinze ans” de onde Orlando di Lasso (1532 – 1594) usou material musical para compor a sua “Missa entre vous filles” (é fácil ouvir que o início é idêntico).

Tudo isto foi criticado aquando da realização do Concílio de Trento, a resposta da Igreja Católica à Reforma Protestante. Decidiu-se suprimir a variedade das práticas locais e proibir o uso de melodias profanas como base das novas missas. Contudo havia divisão quanto à restrição ou não da música polifónica (música a várias vozes). Diz-se que uns achavam que a música devia continuar sem restrições, outros que só poderia ser polifónica se o texto fosse inteligível e outros ainda que defendiam que a Igreja deveria banir a polifonia e regressar a ao uso do canto gregoriano.

É aqui que entra Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525 – 1594). Segundo a lenda, Palestrina terá salvado a polifonia ocidental da condenação pelo Concílio de Trento compondo uma missa a seis vozes de espírito reverente e cuja música não obscurecia o texto: a Missa Papae Marcelli. As suas melodias são suaves, naturais, com poucos saltos e geralmente silábicas (uma nota para cada sílaba). Palestrina trata a dissonância com muito cuidado e em partes da missa com textos mais longos como o Glória ou Credo sacrifica a independência rítmica das vozes para que se perceba melhor as palavras.

O seu estilo contido, sóbrio e de extrema pureza contém a essência da resposta Católica à Reforma Protestante, valeu-lhe a alcunha de “Príncipe da Música” e a sua associação posteriormente ao stile antico.

Giovanni Pierluigi da Palestrina

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