Oh não, outro artigo sobre Breaking Bad (Livre de Spoilers)

Com o recente final da série Breaking Bad, esta pareceu-me a melhor oportunidade para fazer uma análise retrospectiva a muito daquilo que a tornou tão boa e que cativou tantos fãs ao longo do seu tempo de vida. Vou tentar fazer os possíveis por escrever um texto livre de spoilers, que sirva tanto como um reflexo para os fãs acérrimos, como um forte motivador para pessoas que nunca a viram.

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Começando então com uma breve descrição da série para quem ainda não a viu. A série segue a personagem de Walter White, um professor de Química do Ensino Secundário que é diagnosticado com cancro de pulmão e decide ingressar no negócio do fabrico de cristais de metanfetamina com um antigo aluno seu, Jesse Pinkman, de modo a poder obter dinheiro com o qual deixará a família estável a nível financeiro após a sua inevitável morte.

A própria sinopse acima referida é bela na sua simplicidade. A sua aparente banalidade facilmente poderá enganar quem nunca viu a série, mas a verdade é que Breaking Bad destaca-se pelo dom fenomenal de fazer um magnífico estudo de personagens, pelo modo como decide evoluir e apresentar a história, e por diversas decisões acertadas no que toca à caracterização dos planos visuais, cenários, banda sonora, e atenção aos pormenores.

Discussões típicas de watercooler ou em fóruns online têm revelado algo que creio ser extremamente curioso no que toca ao impacto desta série. O tópico central recorrente que  se torna num preferido tema de conversa é sempre a dualidade Bom vs. Mau. Ora, este tema não tem nada de extraordinariamente novo, e é até um dos mais básicos presentes em muitos dramas, aventuras, e thrillers característicos do mundo dos filmes e das séries.

A meu ver, um dos maiores sucessos desta série está exactamente neste pormenor. O facto de ter conseguido despertar tanta discussão num tema já tão batido revela muito sobre a cuidadosa habilidade que Vince Gilligan teve na criação das personagens e situações definidas por uma ambiguidade moral que melhor se situa na linha ténue do moral/imoral. É precisamente por estar tão bem-situada nessa linha que as discussões se geram, e ocorreu a divisão nos fãs entre quem apoiava Walter e quem perdeu o respeito por ele no decorrer da série.

Walter White tornou-se num anti-herói praticamente perfeito. Outra razão que acredito ter sido fulcral para o sucesso da série está no facto de que me parece que muitas pessoas se reflectem um pouco nesta personagem. Não necessariamente nas suas decisões mais malévolas, mas na decisão central de basicamente abandonar uma vida diária pacata, rotineira, banal e essencialmente comum para uma vida mais radical, com mais acção, tensão, cheia de riscos e desafiante.

Quantos de nós não se sentem, em alguma altura, um pouco aprisionados numa vida desinteressante, rotineira e pouco desafiante? Por vezes, parece que a vida simplesmente passa por nós, e acredito piamente que há pessoas que se entediam com o modo como  simplesmente deixou de acontecer situações marcantes ou acontecimentos mais cativantes na sua vida diária. Walter White representa aquela vontade relutante que muitos de nós sentem em mudar radicalmente o percurso de vida, e por isso mesmo cativou um grande conjunto de fãs, creio eu.

Sendo os protagonistas, Walter e Jesse são quem melhor revela essa dualidade interior de bom/mau, moral/imoral, mas a verdade é que praticamente todas as personagens principais desta série revelam-na, algumas mais do que outras. Poder-se-ia argumentar que a série sugere que todos nós temos um pouco dessa dualidade interior, e que portanto podemos, a qualquer momento, “break bad” (para quem não sabe, esta expressão essencialmente significa “sair do molde, ceder à loucura e à vontade de agir contra as normas sociais, de se ‘tornar mau’”).

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Os eventos e a história principal da série toda são sem dúvida de se destacar, mas mais do que tudo, o foco vai para as personagens e para a caracterização visual e musical. Não é de modo nenhuma uma série de acção, até porque quem já viu todos os episódios sabe muito bem que as situações mais “badass” e os eventos mais marcantes do enredo são extremamente raros. Muito mais frequentes são os episódios em que nada de particular acontece (há inclusive o famoso “Fly”, que é literalmente 45 minutos no laboratório de metanfetaminas a tentar capturar uma mosca), mas aí mesmo está a genialidade da série. Ao tornar as situações mais tensas e radicais mais raras, não só dá lugar a uma análise introspectiva às personalidades e maneiras de ser das personagens principais muito mais cuidadosa, mas também incrementa muito mais o efeito marcante destas cenas, quando ocorrem.

Breaking Bad foi uma série que, ironicamente, nunca chegou a se “tornar mau”. Tem uma evolução fascinante, não só nas personagens, mas no próprio tom da série e no modo como aborda os seus temas principais. Adapta-se fantasticamente à evolução das situações, tem cenas com fotografia absolutamente hipnotizante, cria um mundo de personagens todas belas à sua maneira, e é tão minuciosa em todos os detalhes, que a decisão de se tornar um fã obsessivo da série nunca é voluntária, ela simplesmente ocorre naturalmente a partir da visualização do primeiro episódio.

Logo no primeiro episódio, Walter White diz numa aula de Química no que consiste esta disciplina, e esta expressão tornou-se num reflexo perfeito para toda a série: “Chemistry is the study of matter, but I prefer to see it as the study of change. Now, just think about this. Electrons, they change their energy levels. Molecules change their bonds. Elements, they combine and change into compounds. Well, that’s… That’s all of life, right? It’s the constant, it’s the cycle… It’s solution, dissolution, just over and over and over. It’s growth, then decay, then transformation. It’s fascinating, really.”

Agora, num apelo aos fãs que acompanharam a série até à sua inevitável morte no domingo passado, partilho a canção que ecoará para sempre dada a sua fantástica utilização no episódio final:

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Sobre Lostio

Lostio é um jovem açoriano aspirante a engenheiro, com uma adoração por matemática, ciência e cinema. Poder-se-ia dizer que tenta sempre manter uma atitude optimista e de boa disposição. Tem um particular afecto pela arte da argumentação lógica, e crê que de uma boa discussão se pode aprender muito e evoluir como indivíduo.
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