Doutor Quem (ou: o artigo é maior por dentro)

Doctor Who. O que pode ser dito sobre Doctor Who que já não esteja espalhado por uma plenitude de sites, que seja aclamado por milhões de fãs ferrenhos, ou que tenha sido enunciado por inúmeros posts em tumblr, shares de Facebook, e tweets? Pouco mais. Mas na minha casmurrice, farei um artigo para acrescentar ao contador interminável de artigos sobre Doctor Who que existem nas vias virtuais.

Para pessoas que vivem debaixo de um rochedo ou que conseguiram espantosamente ficar imunes a toda a propaganda feita quanto a esta série, eis uma breve introdução: Doctor Who é uma série de ficção científica que foca na personagem do Doutor, um ser pertencente à raça alienígena dos Senhores do Tempo capaz de viajar por todo o espaço e tempo do Universo através da sua mítica nave, a TARDIS, que tem o aspecto de uma cabine telefónica de polícias típica dos anos 60 e que é maior (muito maior) por dentro. Ao longo da série, o Doutor encontra diversas acompanhantes, geralmente femininas, que traz consigo ao longo das suas aventuras, e com o qual costuma ter uma dinâmica sempre engraçada.

TARDIS

Time and Relative Dimension in Space

Se me perder nos detalhes técnicos da série, o artigo fica extenso e aborrecido, portanto tentarei cingir-me ao essencial: Doctor Who é essencialmente um sonho tornado realidade não só de qualquer pessoa com tendência a ficar obsessivo por alguma série, mas também para os próprios produtores e executivos. Isto porque conseguiu alcançar aquela que é praticamente a fórmula perfeita para uma continuidade infinita, e sempre capaz de produzir novas histórias, novas personagens, novos vilões, novos desenvolvimentos, novas temáticas, novos ambientes e épocas para explorar, e por aí adiante.

A chave para esta continuidade está na famosa habilidade de regeneração – quando se encontram mortalmente feridos ou em risco de morrer, os Senhores do Tempo são capazes de transformar todas as células físicas do seu corpo para uma forma diferente, adoptando um corpo e personalidade novos, mas mantendo as suas memórias. Com isto, a esperança de vida do Doutor extende-se interminavelmente, o que permitiu que este tivesse sido encarnado por vários actores, cada um dos quais deu a sua interpretação e maneirismos pessoais à personagem.

Doutores em Doctor Who

Além destes, ainda há duas regenerações em falta: John Hurt e Peter Capaldi

Vamos então ao que importa. Porquê todo este fanatismo? O que há em Doctor Who que o torna uma série tão amada e uma obsessão tão fervorosa para uma base de fãs tão extensa? Não posso falar por todos, naturalmente, mas exporei as razões pelas quais eu pessoalmente gosto tanto da série e que creio ser motivo de adoração para a maioria dos fãs.

Um aspecto fulcral da série é o seu tom geral de boa-disposição e humor. Doctor Who, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não é uma série que deva ser levada muito a sério ou em que se deva valorizar exacerbadamente os aspectos técnicos e logísticos da história global. Muito pelo contrário, tudo isso não se trata de mais do que um pretexto para permitir a aplicação a fórmula de sucesso (a TARDIS possibilita as infinitas aventuras, para infinitos sítios de tempo e espaço, e a regeneração possibilita o uso de vários actores diferentes para o Doutor). Os Doutores todos são sempre caracteristicamente joviais e animados, e os episódios têm frequentemente vários momentos e situações cómicas, o que torna a visualização dos mesmos sempre uma fonte de ânimo.

Outra característica importante de se referir é o conjunto vasto de criaturas com que o Doutor se depara. Não necessariamente “vilões”, mas raças alienígenas cheias de pormenores criativos e várias destas com personalidades interessantes e engraçadas por si só. Algumas criaturas têm uma própria biologia naturalmente arrepiante, como os Anjos Chorões, que apenas se movimentam quando não estão a ser observados e que são tão rápidos que nem um pestanejar de olhos é seguro, ou como o Silêncio, em que as pessoas imediatamente se esquecem da sua presença mal deixam de o ver. Outras são os já típicos mega-vilões, tão caricaturadas na sua sedenta busca pela conquista do Universo e por fazer todo o tipo de mal, que se tornam uma autêntica fonte de gozo devido à sua caracterização quase de auto-paródia, como os clássicos Daleks ou os Cybermen. Arqui-inimigos do Doutor em que a única coisa mais divertida que a sua caracterização é a forma como foram visualmente concebidos.

Dalek

A mais perigosa e temível fonte de Mal de todo o Universo. Sim, a sério.

Há ainda a destacar o modo como abordam várias temáticas que tocam e afectam a todos nós, portanto existe sempre uma componente humana por detrás de muitas das histórias que possibilita uma maior empatia emocional com vários episódios. Podemos ver a dor e o sofrimento associados às perdas pessoais do Doutor em “The Rings of Akhaten”, podemos ver o quão poderoso pode ser o receio humano pelo desconhecido em “Midnight”, podemos ver as assustadoras decisões a que uma fúria insana e uma frustração acumulada podem levar em “The Waters of Mars”, podemos ver como custa fazer qualquer decisão que envolva abandonar uma pessoa amada em “Human Nature/The Family of Blood”, podemos ver a encarnação de todos os medos humanos em “The Impossible Planet/The Satan Pit”, podemos ver a interessante associação do medo à necessidade de venerar uma entidade superior em “The God Complex”, entre muitos, muitos outros. E eu estou só a referir episódios da recente renovação da série, que foi a que vi, existe uma quantidade extraordinariamente superior de episódios da época original do Doctor Who.

Muito mais se poderia dizer sobre o que torna esta série uma fonte de adoração para tantas pessoas, mas, ao fim e ao cabo, o cerne da questão está no facto de que cada um aprecia a série de uma maneira diferente, e por isso mesmo consegue cativar tantos fãs. É uma série de comédia para os mais relaxados, uma série de ficção científica pura para os mais dedicados, um escapismo simples e agradável para espectadores casuais… É uma fuga ideal, e está repleta de magia, encanto, mística, maravilha e imaginação. Tem por vezes histórias notáveis tanto na criatividade como em temas abordados. Há conjuntos de personagens que têm uma dinâmica tão agradável de se ver, e com uma química especial. As interacções do Doutor com personagens como Rose Tyler, Donna Noble ou o Capitão Jack, são sempre um gozo de se ver.

Doctor Who é já um marco na história das séries televisivas, galardoada vezes sem conta, tendo recebido o prémio Guinness pela série de ficção científica em exibição durante mais tempo e com maior sucesso (com base em ratings de visualização, vendas de DVDs, vendas de livros,…). Assim sendo, é sem dúvida algo a que merece ser dada a devida atenção e, mesmo para quem a ficção científica não cai facilmente nas suas boas graças, ao menos dêem-lhe uma oportunidade. Nem que seja pelo seu valor histórico, mas também porque é muito, muito mais do que “apenas” uma outra série de ficção científica.

Para terminar o artigo, vou simplesmente satisfazer os fãs mais ferrenhos ao pôr aqui o trailer para o tão aguardado episódio do 50º aniversário do Doctor Who, que está cada vez mais próximo.

Anúncios

Sobre Lostio

Lostio é um jovem açoriano aspirante a engenheiro, com uma adoração por matemática, ciência e cinema. Poder-se-ia dizer que tenta sempre manter uma atitude optimista e de boa disposição. Tem um particular afecto pela arte da argumentação lógica, e crê que de uma boa discussão se pode aprender muito e evoluir como indivíduo.
Esta entrada foi publicada em Cinema e Televisão. ligação permanente.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s