Galinha com Ameixas

por Rui Filipe

É muito difícil definir concretamente aqueles elementos que enformam a nossa vida e, dentro destes, ainda é mais difícil desenterrar aquela coisa (pois nós nem sabemos bem se ela consiste num momento, num sentimento, numa ideia ou num conjunto destas coisas) que parece ser a força motriz que dá sentido a toda a nossa existência. Talvez nem seja possível fazer algo deste género porque, acima de tudo, é possível que estejamos condenados a ser avatares de forças que eventualmente vieram a habitar em nós, por trabalho consciente ou não da nossa parte, mas que nunca mostram realmente a sua verdadeira natureza. Claro que tudo isto é apenas especulação (um pouco romantizada), mas seja como for, é inquestionável que somos movidos internamente por um impulso que enforma não só os nossos actos, mas a própria perspectiva que temos da vida e dos seus acontecimentos. Algo que nos permite, à nossa maneira, transcender uma simples vida que se resume ao acto de viver.

Mesmo não sabendo concretamente no que consiste esta movimentação interna, a verdade é que ela é a condição necessária para uma vida que é mais do que um estar vivo. Se ela desaparecer, mas em certa medida nem nos dermos conta desse acontecimento, o mais possível é que nos tornemos, segundos as palavras de Fernando Pessoa, em cadáveres adiados que procriam, cuja vida nada mais é do que uma espera pela morte. Mas também pode acontecer algo diferente, o facto singular de, às vezes induzido por um momento chave, repentinamente esta força desaparece deixando um claro vazio dentro de nó. Nestes casos fica-se como com uma alma fantasma, um vazio que se sente como devendo estar cheio. Nestas alturas o mais provável é restar apenas um desejo de morte.

Não é difícil adivinhar que o conto de hoje não é ligado aos temas mais leves, nem aos mais felizes. Mesmo tendo o nome Galinha com Ameixas, Poulet aux Prunes na versão original, pois é escrita pela escritora iraniana Marjane Satrapi (escritora iraniana cuja autobiografia, Persepolis, também merece ser lida), a narração em causa é talvez das mais pesadas que podem ser lidas no mundo da banda desenhada. Colocando o personagem principal neste momento nulificador da vida, somos levados a um mundo que, ao perder o seu porquê principal, é perspectivado em toda a sua extensão. É com isto que se é apresentado a uma existência não só formada por uma narrativa interna do próprio personagem, como também às consequências da sua vida naqueles que vivem próximos dele (instâncias que por vezes até podem suscitar momentos contraditórios). É igualmente neste momento limite, único verdadeiramente tradutor destas realidades, que se trás luz quanto ao constante embate de nós mesmos com destinos que nos aparecem como intransponíveis, com pessoas que nos surgem como inalcançáveis, com remorsos que nos atormentam como chagas, e com domínios espirituais que nos fogem como fantasmagóricos.

Assim, mesmo não sendo dos temas mais fáceis de ler, nem das leituras mais alegres, aconselho vivamente esta obra a quem quer que seja fã de boa literatura. Não é comum encontrar numa só história um conjunto tão complexo de temas, harmoniosos entre si, e dados de forma que, mesmo triste, comportem consigo uma enorme beleza trágica.

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