À espera do 731!

É uma situação rara numa cidade grande como Lisboa, chegar uma pessoa à paragem do autocarro e saudar quem já lá estava. Mais raro ainda é começar uma conversa.
Este senhor aproximou-se devagar mas com passos firmes e pediu licença para partilhar o banco.
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Devia haver mais bancos para uma pessoa descansar de vez em quando, quando vem à rua. É bom sair e andar pelo menos uma hora, diz o médico. Mas com 90 anos é difícil andar sempre sem parar e assentar um pouco.
Noventa anos? Não parece nada, tem uma vitalidade que se dá menos 10 anos.
Já teve altos e baixos, estes quando morreu a companheira e mãe dos filhos e também quando esteve internado com problemas do coração. Foi muito acarinhado no hospital por todo o pessoal médico, enfermeiro e auxiliar. Trataram-no bem e deram-lhe bons conselhos, a saúde não lhe tem pregado mais partidas, a mobilidade é que já não é a mesma.
Trabalhou desde rapaz e durante mais de 60 anos, como carpinteiro, até as forças começarem a fraquejar.
Estudos não teve, mas foi capaz de dar instrução aos filhos. Gosta da vida, das alegrias simples que ela dá, nem que seja um golo do Benfica. Tristezas, não vale a pena pensar nelas.
A chegar o autocarro, a conversa vai ter de terminar. Um aperto de mão vigoroso, com os desejos de saúde e de felicidade. Quase certo que não voltarei a ver este concidadão, que reside num bairro em Lisboa, a quase um milhar e meio de quilómetros. Mas fica o testemunho positivo de alguém que transmite a ideia de cidadania – nascemos e crescemos no mesmo país, partilhamos a mesma língua, cultura, origem, pertencemos à mesma sociedade, à mesma Nação.
A sociedade politicamente organizada, o Estado, criou um sistema que foi evoluindo desde a proteção aos mais fracos no interior dos castelos dos burgos, até à sociedade atual em que se instituíram outras formas de proteção. Contra os salteadores, os ladrões, a doença e a miséria de antigamente, o Estado hoje tem essa mesma responsabilidade:
a Defesa Nacional, a Segurança Pública, os serviços de Saúde, a Educação e a proteção de outros direitos cívicos, entre os quais se contam o emprego, a habitação, a alimentação, a liberdade, são as garantias que nos dá o facto de pertencermos à mesma Pátria.
É este quadro que hoje está em risco, numa espécie de retrocesso civilizacional!
Os mais ricos, os que têm, por isso mesmo, o privilégio de ter acesso aos bens, puseram em risco voluntariamente as suas fortunas, com jogos financeiros especulativos, com regras semelhantes ao do infantil jogo do “monopólio”. Querem agora recompor o seu capital através das regras impostas por aqueles que estão no poder político (legislativo e executivo).
Dominam a informação, veiculam teorias para provocar o conformismo, com a preciosa colaboração dos comentadores ideologicamente identificados com aqueles interesses, muitos deles usando o diploma de economia para convencerem que são os donos da razão.
O nosso concidadão de 90 anos, que construiu o país com o trabalho dele e de outros milhões que agora já não trabalham, têm de se sujeitar e perder parte da pensão que o Estado se comprometeu a dar, para que esta pague os prejuízos do jogo daqueles senhores donos do capital.
Com a teoria de que os que trabalham pagam as pensões dos que já não trabalham, como há menos emprego, há menos descontos, logo, tem de haver menos pensões.pensoes
Se fosse esse o único modo de financiamento, o Estado não seria necessário, os trabalhadores descontariam numa associação mutualista dos que trabalham para os que são reformados ou pensionistas.
Seria o mesmo que o Estado definisse que as Forças Armadas se auto-financiassem, as suas receitas próprias seriam o pagamento das ações de busca e salvamento, os passeios nos barcos da Armada, nos veículos do Exército ou nos aviões da Força Aérea.
A função dos governantes é de cumprir as obrigações do Estado para com os seus concidadãos, repartindo os recursos de acordo com as prioridades.
Estes governantes escolheram como prioridade tirarem os recursos aos que menos têm, não só os rendimentos, como a capacidade para se oporem e resistirem. Para transferirem para os “sagrados” mercados o que eles exigem, para não ficarem nervosos, birrentos e exigirem mais e mais.
O senhor de 90 anos e todos os que construíram o país, trataram da saúde, da segurança, da educação, foram obrigados a ir para a guerra, cobraram os impostos do Estado, durante décadas de vida, têm agora que pagar pelos erros dos outros?

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