Alexandre Dores e a vida dos cineastas ignorados

No meu percurso como cinéfilo obcecado, tenho vindo a descobrir os repertórios de imensos cineastas, e um dos meus maiores gozos pessoais é precisamente vir a apreciar o estilo característico que um realizador específico dá aos seus filmes. Começamos a associar as particularidades específicas de um filme à pessoa que o realiza, e acabamos por lhe ganhar uma admiração especial quando vemos que o modo como estas pintam os seus filmes nos atrai tanto.
Os meus gostos pessoais vão assim desde nomes que estão entre os mais importantes no cinema (Stanley Kubrick), alguns dos mais populares devido à sua extravagância e loucura (Quentin Tarantino), outros com aspectos mais ‘indie’ mas ainda largamente apreciados (Wes Anderson), e depois há sempre aquele específico que sinto que sou dos poucos que tem uma adoração enorme por ele. Esse é, para mim, Alexander Payne e é dele que vos pretendo falar neste artigo.

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Alexander Payne não começou propriamente a sua carreira há muito tempo. O seu primeiro filme foi em 1996, e desde então apenas tem 6 filmes em seu nome. No entanto, praticamente todos eles foram bem-recebidos, e, no seu total, arrecadaram 19 nomeações para Óscares (3 deles para Melhor Filme e Melhor Realizador), embora apenas duas vitórias. Assim, embora não seja um nome que ande muito na boca do povo, é um realizador que tem mostrado saber o que faz. Acabei por ver já todos os seus filmes, e adorei-os a todos. Pelo menos 2 deles incluiria facilmente numa lista pessoal de filmes preferidos de todos os que já vi, e pretendia assim dar uma breve descrição de cada um deles para ver se o popularizo nem que seja um pouco mais, pois creio que ele merece.

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O seu primeiro filme, de 1996, foi CITIZEN RUTH. Como a maioria de filmes de estreia, não está propriamente no melhor nível que ele é capaz de conseguir, mas já dá para ver o estilo inicial dele e que tipo de visão ele começou por ter ao fazer filmes. A história segue a personagem de Ruth Stoops, interpretada de um modo absolutamente impecável pela actriz Laura Dern. Esta é uma sem-abrigo com já uma longa e triste história de uma vida na cadeia e na rua. Não é, de modo nenhum, uma personagem admirável nem com que se crie qualquer empatia. Acaba por ficar grávida por descuido pessoal e, na cadeia, conhece um grupo de pessoas que a decidem acolher quando saem e ela rapidamente se vê no meio de uma intriga política relativamente à questão do aborto. Pessoas pró-vida e pró-escolha lutam entre si sobre o que ela deveria fazer com o seu feto por nascer. Tentam mostrar empatia pela Ruth, ambos os lados fazendo todo o possível por mostrar a validade dos seus argumentos, mas ambos a ridicularizarem-se sem se aperceber. É uma fantástica sátira política, cheia de momentos que focam a hipocrisia de cada lado de um modo hilariante, e sem nunca tomar partido por nenhum dos lados – ambos são igualmente criticados. Reforça nitidamente a ideia de que, quando surgiu esta discussão, muitas das pessoas envolvidas estavam muito mais preocupadas em fazer vingar a sua visão política, e não tanto preocupadas pelo feto ou pela mulher em questão.

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O seu próximo filme, de 1999, foi ELECTION. Continuou a sua tendência inicial de sátiras políticas e é um dos 2 que inicialmente referi que incluiria na minha lista de favoritos de todos os que já vi. A história segue uma eleição para o presidente do Conselho dos Estudantes que está a ocorrer numa escola secundária. As suas principais personagens são o professor responsável, interpretado por Matthew Broderick, e a estudante totalmente obcecada em ganhar e prosperar, interpretada por Reese Witherspoon (papel este absolutamente formidável, e que se destaca facilmente). Novamente com temas fortemente satíricos, o filme é uma crítica muito mais subtil, mas igualmente eficaz, ao sistema educativo e ao sistema político. Tem uma narrativa principal afastada do tema da eleição que serve como um reflexo magnífico de todas as qualidades e deficiências morais das personagens, e convida a reflectir precisamente sobre questões de justiça, corrupção, abuso do sistema, entre muitas outras, no que toca ao típico sistema de eleição. Torna-se um filme mais poderoso que CITIZEN RUTH devido às suas personagens, que são muito mais elaboradas e complexas e cuja história pessoal temos a hipótese de descobrir, podendo delas vir a conhecer muito melhor as motivações, dilemas interiores e prioridades pessoais, o que as torna em elementos muito mais interessantes quando inseridos na sátira global do filme.

Estes dois primeiros filmes mostraram muitas das qualidades de Alexander Payne no que toca à comédia negra e sátira política. Nestes próximos filmes, ele desvia-se nitidamente das críticas políticas, mas continua a manter ainda, mesmo que ligeiramente, o seu dom para a comédia negra.

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Em 2002, lança ABOUT SCHMIDT. Este já começa a mostrar a apreciação do realizador quanto à rotina diária contemporânea e o seu interesse pelas pessoas tipicamente sedentárias dos meios suburbanos. O filme segue a personagem de Warren Schmidt, interpretada de um modo esplêndido por Jack Nicholson num papel tão diferente de todos os outros que já fez, enquanto tenta lidar com o facto de estar a envelhecer e de que a vida lhe está a passar ao lado sem que ele tenha tido grandes façanhas de que se possa orgulhar. Tem um casamento que já dura 42 anos, que perdeu toda a sua chama, está facilmente irritado com maneirismos particulares da sua mulher, pelo qual tem perdido o afecto, e tem uma filha que está prestes a casar com um homem de que não gosta nada, possivelmente por se sentir ameaçado e triste ao se aperceber de que ele estará a “roubá-la” dele. É um estudo de personagem cativante, conduzido quase inteiramente por Jack Nicholson, que nos dá uma perspectiva lindíssima quanto ao quão vazio e desprovido de energia pode ser uma vida que está chegando ao fim. Os momentos cómicos que provêm da interacção com a família do noivo da filha são de se prezar também.

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Chega 2004 e temos o primeiro dos 3 filmes que foram presenças fortes nos Óscares do seu respectivo ano com SIDEWAYS. É o meu pessoal favorito e o segundo dos 2 referidos que colocaria entre os favoritos de todos os filmes vistos. Continuando a moda agora de acompanhar vidas rotineiras e com o interesse em retratar na tela do ecrã cinematográfico a beleza simples e elegante de uma vida pacata, é uma mera jóia de filme. Segue dois amigos de longa data, Miles Raymond (Paul Giamatti) e Jack Cole (Thomas Haden Church), ambos com interpretações fenomenais (outra moda típica dos filmes deste realizador, pelos vistos). Jack está prestes a casar e Miles está divorciado há 2 anos, mas ainda não o conseguiu ultrapassar completamente. Este filme contrapõe as personalidades nitidamente diferentes e contrastivas destes amigos (optimista/pessimista) enquanto decidem passar algum tempo fora indo a degustações de vinho e explorando mais da vinicultura, como uma despedida de solteiro para Jack. Novamente, o foco está precisamente no estudo das personagens, e o próprio vinho e o modo como é apreciado de um modo diferente por cada personagem torna-se num símbolo belo da maneira como encaram a própria vida.

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Saltamos agora 7 anos para 2011 e temos THE DESCENDANTS. Tal como previamente, uma história relativamente banal, com poucos eventos marcantes para avançar a trama, mas sempre a transbordar de humanidade e de apreciação pela elegância simples das interacções pessoais da vida monótona. Este acaba por se destacar a nível de contextualização espacial ao representar a vida no Havai. Segue a história de Matthew King (novamente, com uma interpretação poderosa da parte de George Clooney), que tenta simplesmente manter a cabeça à tona da água enquanto se vê obrigado a ter de lidar com as suas duas filhas (de 10 e 17 anos), ambas com personalidades muito distintas, que agora ficaram inteiramente a seu cuidado após a sua mulher ter entrado em coma, e com os restantes irmãos da sua famíla directa, que têm andado a discutir seriamente sobre que destino dar a um conjunto de terras que herdaram. Este começa a tocar um pouco mais profundamente sobre as ligações de família e a natureza das relações interpessoais. O retrato da humanidade das personagens e da sua inserção no contexto espacial é lindíssimo de se ver, bem como o modo como personagens que, sem o esperarmos, se interrelacionam e se interajudam.

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Temos agora 2013 e, ainda fresquinho dos Óscares de há uns dias, falo-vos de NEBRASKA. Com este (e já com estes dois últimos filmes, refiro ainda), nota-se ainda mais o valor que Alexander Payne dá ao modo como visualmente retrata estas elegâncias diárias no ecrã. Decidindo representar o filme inteiramente a preto e branco, dá ao filme um aspecto ainda mais característico no modo como agora se foca na camada mais idosa. Reforça precisamente a maneira como as pessoas nesta faixa etária podem acabar por inevitavelmente cair na senilidade, mas que se lhes deve ser dado o devido valor por toda a experiência de vida que têm e por, muitas vezes, tentarem disfarçar na rabugice um terno e carinhoso espírito. Segue a história de Woody Grant, interpretado por Bruce Dern de uma maneira fantástica (curiosidade: este actor é o pai de Laura Dern, actriz principal de CITIZEN RUTH), enquanto vai com o seu filho numa road-trip para levantar um prémio de 1.000.000 doláres que acredita ter ganho, embora seja apenas SPAM publicitário. Novamente, as interacções simples são o foco, e neste acho que ele até volta um pouco ao seu tom mais satírico, pois realça como muita da família directa de Woody Grant acaba por tentar explorar a sua suposta fortuna encontrada para proveito pessoal. Alia a terna beleza das ligações de família, com o respeito e admiração pela camada idosa, com um foco numa fotografia elegante, tendo ainda as seus poucas mas relevantes picadas de crítica.

Temas como sátira política, ou pessoal, valorização pela beleza da simplicidade de uma vida diária monótona, um foco dedicado à fotografia, seja para representar o Sol a banhar campos de uvas para fabricar vinho ou para representar uma simples tarde passada em família a ver televisão, Alexander Payne cativou-me de imensas maneiras e é um cineasta que afirmo ser um dos meus pessoais favoritos. Em todos os seus filmes, consegue extrair dos seus actores interpretações lindas de se ver, que conseguem conduzir o filme inteiramente, mesmo com as suas já típicas histórias minimalistas, e é um realizador que tem uma apreciação pela humanidade das pessoas aliada à sua consciencialização de injustiças político-sociais que dá ao seu repertório um esplêndido conjunto de filmes, todos imensamente agradáveis de se ver. Recomendo-o vivamente.

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Sobre Lostio

Lostio é um jovem açoriano aspirante a engenheiro, com uma adoração por matemática, ciência e cinema. Poder-se-ia dizer que tenta sempre manter uma atitude optimista e de boa disposição. Tem um particular afecto pela arte da argumentação lógica, e crê que de uma boa discussão se pode aprender muito e evoluir como indivíduo.
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