Inglaterra, Cornettos, Zombies, Polícias e Alienígenas

Para o artigo de hoje, venho-vos falar da Trilogia Cornetto, também chamada a Trilogia Três Sabores de Cornetto ou a Trilogia Sangue e Gelado. Para quem ainda não está familiarizada com ela, ou não a conhece com esse nome, a designação pode-vos soar um pouco incomum, mas só isso já transmite muito bem a bizarra mas estranhamente eficaz mistura de géneros e estilos que tanto cativam os fãs desta trilogia.

Criadores da Trilogia Cornetto

(da esquerda para a direita) Simon Pegg, Edgar Wright, Nick Frost

Um pouco de background para vos situar, então. Esta trilogia consiste em três filmes feitos quase inteiramente pela equipa Simon Pegg (protagonista e escritor), Edgar Wright (realizador e escritor) e Nick Frost (co-protagonista). Consistem em filmes que misturam o género da comédia britânica com um de três outros géneros (filmes de zombies, ação policial e ficção científica). Em todos eles se nota o mesmo estilo visual cinematográfico (já característico deste realizador), existe uma estrutura narrativa muito semelhante e se podem detetar diversas pequenas cenas ou pormenores comuns aos três filmes. Um dos running gags detectados foi precisamente a referência ao gelado Cornetto, responsável pelo nome dado à trilogia.

Os três filmes desta trilogia são os seguintes:

Shaun of the Dead (2004) – Autointitula-se apropriadamente como uma “rom zom com”, ou seja, uma comédia romântica com zombies. Acompanha a história de Shaun, que mantém um entediante emprego numa loja de electrónica, e partilha o apartamento com o seu amigo de infância Ed, desempregado e imaturo. Quando começa o surto de zombies, ele tenta reunir-se com a sua mãe, a sua namorada e amigos associados, de modo a poderem, em conjunto, sobreviver. Adopta o já conhecido formato do grupo de pessoas no meio de um cenário catastrófico a tentarem sobreviver até ao fim.

Hot Fuzz (2007) – Este filme é o típico filme “buddy cop”, um par de oficiais da lei que se começam a envolver com uma misteriosa sequência de assassinatos que têm havido na pacata vila de Sandford, acabando por degenerar para o fim nas já características cenas de tiroteios, perseguições, combate aos criminosos, e até explosões. Acompanhamos o sargento Nicholas Angel, extremamente fiel às regras e a um cumprimento da lei rígido, enquanto se tenta adaptar a esta vila, para onde é transferido, e ao seu novo parceiro Danny Butterman, um pouco pateta mas de boas intenções.

The World’s End (2013) – Um grupo de amigos de longa data decide revisitar a cidade onde nasceram, por sugestão daquele que era o “líder” do grupo Gary King, para recordar os velhos tempos e meter a conversa em dia, enquanto realizam uma espécie de rally-tascas igual a um que tentaram fazer mais novos no qual tentam tomar uma cerveja em cada um de 12 bares. Enquanto o fazem, vão-se apercebendo, aos poucos, de uma invasão alienígena que ocorreu na cidade e que substituiu algumas das pessoas por espécies de robot. Pretende reproduzir os elementos de ficção científica e invasão espacial.

Filmes da Trilogia Cornetto

Shaun of the Dead (2004), Hot Fuzz (2007), The World’s End (2013)

Há muitas razões e motivos viáveis para adorar esta trilogia como eu adoro. Uma delas está na cinematografia e estilo visual. Este deve-se maioritariamente a Edgar Wright, o realizador, que já com o seu outro filme Scott Pilgrim vs. the World, consegue trazer um estilo característico seu e tipo de montagem muito próprios. Eu sempre fui fã de cinema de autor, e admiro quando um realizador consegue impor a sua marca distinta em todos os filmes que cria de um modo único, original e aprazível. Não só penso que cada vez isso é mais difícil, e portanto admirável quando feito com sucesso, mas também creio que traz uma apreciação especial pela filmografia como um todo, além de por cada filme individual.

Edgar Wright tem um estilo frenético, cheio de transições bruscas, zooms e close-ups repentinos, que eu acho extremamente animador e a transbordar pura diversão. Isto porque os seus close-ups e transições são apresentados a um ritmo que pareceria mais apropriado a cenas de acção intensa, mas em vez disso são aplicados em contextos onde o seu próprio uso torna-se engraçado e fonte de maior comédia. Veja-se, a título de exemplo, as cenas de encher os copos com bebida no The World’s End, o pequeno-almoço de Shaun no Shaun of the Dead, ou o preencher da papelada no Hot Fuzz. Tudo isso é feito de um modo tão agitado, apesar de o seu conteúdo, fora de contexto, ser algo geralmente monótono, daí a piada que tem. Este efeito não é nem demasiado exagerado nem demasiado subtil (à boa moda britânica), e por isso mesmo o acho fantástico.

Outra das razões pela minha adoração é a mistura de géneros dos filmes. Todos eles caem bem na categoria de comédia britânica, mas reproduzem também de um modo muito bem feito o outro género de filme que pretendem “parodiar/homenagear”, seja o filme de zombies, de polícias, ou de invasão alienígena. E isso é, para mim, outro grande motivo de louvor. Conseguir dominar bem o género cómico com piadas, gags, tom humorístico, e cenas divertidas juntamente com outro género, geralmente mais sombrio ou de ambiente tenso, é algo que não imaginaria possível antes de ver esta trilogia. Por isso mesmo, admiro e aplaudo a equipa criativa.

Mais um aspeto importante a realçar é o nível de detalhe dado às cenas, e ainda a inclusão de diversos elementos pressagiadores, que dão pistas e relances quanto à história do filme ou referenciam situações que ainda não aconteceram. Cada um dos filmes está repleto de pequenas nuances destas, que não só dão maior gozo quando somos capazes de as “apanhar”, mas também lhes dão maior replay value, ou seja, são filmes que continuam a entreter, podendo ainda ser apreciados com maior profundidade, em visualizações repetidas. Depois de a Liz ter acabado com Shaun, a conversa inicial de Ed com ele no Shaun of the Dead é uma referência disfarçada a todo o enredo do filme. Os nomes dos bares em The World’s End aludem todos aos eventos principais que neles ocorrem. Os apelidos das pessoas de Stanford em Hot Fuzz dão alguma luz perante o facto de que algo sombrio se está a passar pela vila. Frases aparentemente aleatórias, cenas insignificantes, trocas que podem durar menos de um minuto acabam por tomar um maior significado em algum momento mais climático do filme. Seja a frase “You’ve got red on you” no Shaun of the Dead, “Yarp” no Hot Fuzz ou “It’s pointless arguing with you” no The World’s End, os exemplos são muitos e diversos.

Os vilões da Trilogia Cornetto

Zombies, assassinos e alienígenas

Há também a apreciação especial dos filmes como uma trilogia unida, que fornece a todos maior poder e é uma perspectiva que permite dar maior destaque e realce a características dos filmes que, individualmente, poder-se-ia não notar tanto. Apesar de não terem sido originalmente concebidos com a ideia de trilogia em mente, o facto é que existem muitos elementos temáticos comuns aos três que favorecem tal classificação, agora já oficialmente reconhecida pelos criadores. Há o gag dos Cornettos, feito especialmente de modo a que cada sabor de Cornetto aluda ao tema do filme onde se insere – Shaun of the Dead tem um Cornetto de morango, onde o vermelho representa o sangue característico dos zombies; Hot Fuzz tem o Cornetto de baunilha, onde o invólucro é azul, cor representativa da força policial; e The World’s End tem o Cornetto de menta, com invólucro verde que simboliza o tema de ficção científica.

Os próprios temas levantados são comuns a todos, e interessantes por si. Há o tópico central da amizade adulta entre dois homens, um mais imaturo e infantil, e outro mais terra-a-terra e ciente da realidade. Há o tema da adolescência perpétua, onde a personagem imatura (e, em alguns casos, o outro protagonista também) parece presa num estado contínuo de adolescência, numa rotina constante e imutável de hábitos que lhe parecem ser as principais fontes de prazer e entretenimento desde que era jovem, sem nunca avançar. Há a abordagem feita de que todo o mundo parece estar a vir atrás de nós, seja no formato de zombies, assassinos encapuçados ou substitutos alienígenas – abordagem esta que, de certo modo, simboliza um pouco o quão desenquadrados e alienados da realidade os protagonistas se sentem. Algo com que todos nós nos podemos identificar um pouco, a alguma altura da nossa vida.

Todos estes aspetos, a escrita, as personagens e o humor britânico pintam os filmes todos da trilogia de um modo único e criativo, que tem imensos pormenores particulares a louvar, e que convida a visualizações repetidas dos três, de uma maneira que parece nunca fartar. Como filmes do género que pretendem reproduzir, ou como puras comédias, funcionam e entretêm. Como obras cinematográficas, há imenso com que se deleitar, seja no estilo visual de Edgar Wright, seja no argumento ou até na banda sonora (a banda sonora de The World’s End foi feita por Steven Price, que também fez a de Gravity, pela qual ganhou o Óscar). São obras magníficas, e recomendo a todos que as vejam, porque, na minha opinião, conseguem trazer algo de novo e bom, o que nem sempre é a tarefa mais fácil no cinema da atualidade.

Anúncios

Sobre Lostio

Lostio é um jovem açoriano aspirante a engenheiro, com uma adoração por matemática, ciência e cinema. Poder-se-ia dizer que tenta sempre manter uma atitude optimista e de boa disposição. Tem um particular afecto pela arte da argumentação lógica, e crê que de uma boa discussão se pode aprender muito e evoluir como indivíduo.
Esta entrada foi publicada em Cinema e Televisão. ligação permanente.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s