The Vampire Diaries: a série de que gost(áv)amos mas temos vergonha de admitir

 

“Hello John. Goodbye John.”

 

Há sempre aquelas séries de televisão que acompanhamos regularmente mas em relação às quais nada falamos aos amigos. Temos vergonha de o fazer, talvez por temermos que façam pouco de nós por assistirmos a tais programas. São as nossas “séries secretas”, os guilty pleasures que ocupam os nossos minutos mas sobre as quais não dizemos uma única palavra. Assim, decidi analisar algumas sem quaisquer pruridos, pois só porque uma série tem certas “palavras-chave” proibitivas na sociedade dita mentalmente sã dos nossos dias, não quer dizer que seja má — contudo, despertará sempre o preconceito.

 

“Mystic Falls. I was born here. This is my home. For centuries, supernatural creatures have lived among us. There are vampires, werewolves, doppelgängers, witches and even hybrids. There are those who protect them and those who want them dead. They’re our friends, our enemies…  The ones we love and the ones we’ve lost. And then there’s me. I’m human…”

 

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E começo com os vampiros. Sim, palavra proibida. Também para mim, até há pouco mais de um ano. Foi nessa altura que me aventurei, após muita pressão de uma amiga (merci Estelle), a ver The Vampire Diaries ou, em Portugal, Diários de Um Vampiro. O nome assusta, é verdade, e foi por isso mesmo que resisti durante tanto tempo a olhar sequer para esta série. Porém, quando por fim me decidi a espreitar, fiquei agarrada. Aparentemente, a história é Twilight puro e duro — mas desenganem-se. Primeiro, alcança algo que esses filmezecos nunca conseguiram: um equilíbrio perfeito entre o cómico, o sexy e o sangrento. Segundo, Elena Gilbert (Nina Dobrev) não é definitivamente Bella Swan e Stefan e Damon Salvatore (Paul Wesley e Ian Somerhalder) não são, de todo, Edward Cullen e Jacob Black.

 

Katherine: So, here we are: the brother who loved me too much and the one who didn’t love me enough.

Damon: And the evil slut vampire who only loved herself.

 

Para que conste, tenho aversão à saga criada por Stephenie Meyer, de tão maus que os livros (li um excerto e bastou-me) e os filmes são. Porém, como acabei de referir, TVD não é Twilight. A diferença está logo nas protagonistas, tanto nas personagens como nas actrizes que as interpretam. Bella é, sem meias-medidas, uma enjoada mimada que anda quatro ou cinco filmes a jogar com os sentimentos de dois monstrinhos também eles enjoadinhos e que não consegue viver sem pelo menos um deles na sua vida. Elena é uma rapariga forte e destemida que não precisa dos irmãos Salvatore para sobreviver (como tantas vezes lhes tenta fazer ver). Tem as suas próprias ideias, uma mentalidade auto-suficiente e princípios e ideais inabaláveis sobre os quais assenta a sua caminhada. Para Bella, a chegada de Edward é a salvação. Para Elena, Stefan e Damon são a perdição.

 

Alaric: Yeah, see, I don’t get that. Stefan has his humanity. He’s a good guy. Oh, you’re a dick and you kill people, but I still see something human in you. But with her, there was… There was nothing.

 

Mas antes de entrarmos por aí, esclareçamos mais alguns pontos importantes. Stefan, interpretado pelo apaixonante Paul Wesley,  é o vampiro eloquente que, nas palavras do irmão-que-também-morde-pescoços, “quer sentir todos os episódios de How I Met Your Mother” (há de ter ficado feliz por não ter sido capaz de sentir o último). Idealista mas (claro) com um passado sombrio e um amor puro e sentido por Elena. Por que razão chegou a Mystic Falls? Para quem não se importa com o spoiler: para conhecer a doppelganger da sua antiga paixão de quinhentos anos Katherine Pierce — que é nada mais nada menos que Elena. Atrás dele vem o absolutamente magnético Ian Somerhalder como Damon, o irmão malvado que desligou a sua humanidade para poder viver e matar sem remorso e que (juntamente com uma certa sassy-bitchy-villain) tem as melhores one-liners da série. Porém, Stefan ainda acredita na sua bondade — o problema é que esta só será despertada por sentimentos intensos em relação a Elena. Não escondo que sempre preferi o romance entre Elena e Damon ao entre Stefan e Elena, no entanto, qualquer um deles é profundamente interessante e qualquer um deles tem cenas de inegável beleza. Porém, desengane-se quem pensa que esta série é apenas sobre o romance; muito pelo contrário: esta é a história de uma rapariga que tudo faz por se manter humana e fiel à sua humanidade face à entrada de dois irmãos vampiros na sua vida.

 

Rose: It’s not just that she makes him a better person. She does, but… he changes her, too. Damon challenges her. Surprises her. He makes her question her life. Beliefs. Stefan is different. His love is pure. And he’ll always be good for her. Damon is either the best thing for her, or the worst.

 

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A rodear Elena há um leque rico de personagens que, a pouco e pouco, vão ganhando o seu protagonismo. Num dos melhores exemplos de character development, Caroline (a espantosa Candice Accola) passa de miúda mimada e irritante para uma jovem mulher confiante e totalmente badass, sem dúvida uma das melhores personagens da série. Bonnie (Kat Graham) é a melhor amiga de serviço e não só: como em todas as séries, há sempre um ódio de estimação dos fãs; em TVD, esse lugar é ocupado pela bruxa mais incompetente da história da televisão. Matt é o “rapaz da aldeia” de olhos azuis que, sem alguma vez ver a sua espécie alterada, passará por transformações e dilemas emocionais incomparáveis. Tyler, menos preponderante na primeira temporada, ganha grande protagonismo e interesse na segunda. Jeremy é o irmão perdido de Elena que lenta e sofridamente começará a encontrar-se. Pelo meio, encontramos Jenna, Alaric, John, Pearl e Isobel, só para nomear alguns.

 

Katherine: I’m impersonating my dull as dishwater doppelganger, Elena. She has the worst taste.

 

Não são apenas as personagens e os actores que tornam The Vampire Diaries interessante. A história e sub-histórias também contam. Ao longo de várias temporadas, a forma como Elena, Stefan e Damon são desenvolvidos tem sido fantástica. E não apenas os três protagonistas, mas também os supracitados secundários. Os arcos e capítulos das temporadas estão maioritariamente bem desenvolvidos e as personagens acrescentadas ao longo do caminho são quase sempre grandes adições, por exemplo, os vilões nunca são personagens bidimensionais ou puramente maus: há sempre algo neles que nos permite também criar uma certa dose de empatia (os Originais são o maior exemplo disso). Rose trouxe momentos de grande emoção, Hayley apimentou o clima já de si repleto de intriga, Elijah foi a honra entre a loucura, Rebekah a inocência escondida sob a pele de uma assassina e Klaus… Bem, Klaus é Klaus, só vendo se explica.

 

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Damon: Vampires can’t procreate… though we love to try.

 

Porém, nenhum texto sobre TVD estaria completo sem falar de Katherine Pierce, uma das melhores personagens de toda a televisão americana. O primeiro episódio em que aparece explana desde logo toda a sua awesomeness — porque não há mesmo outra palavra para a descrever — e esta característica expande-se por toda a série. Num par de episódios, torna-se imediatamente a melhor personagem de todas e a preferida de toda a gente. Porque não há mesmo volta a dar: a forma como se veste, a sua atitude, a backstory tocante e a maldade infinita (misturada com uma humanidade que tenta ser oprimida mas acaba por ser transbordante) por trás de todas as suas acções são, pura e simplesmente, épicas. The Vampire Diaries não seria o mesmo sem Katherine Pierce (ou Katerina Petrova, como preferirem) e os criadores sabem-no, aproveitando cada cena em que ela entra para dinamitar os pequenos ecrãs das nossas casas. Quando Katherine está no plano, a qualidade da série dispara. E para isso muito contribui a qualidade tremenda de Nina Dobrev.

 

Katherine: Humanity is a vampire’s greatest weakness. No matter how easy it is to turn it off, it keeps trying to fight its way back in. Sometimes I let it.

 

E assim voltamos ao primeiro tópico: esta jovem búlgaro-americana que tem qualidade para muito mais. Elena e Katherine são ambas personagens fascinantes, cada uma com uma grande força interior e personalidades, aspectos e formas de estar muito próprios. Contudo, Nina consegue interpretá-las sem mácula, sem alguma vez deixar que as duas personagens, tão iguais e distintas ao mesmo tempo, se toquem: como se se desdobrasse mesmo em duas actrizes e até pessoas diferentes. Mesmo quando Katherine imita Elena e vice-versa a actriz deixa bem visível a fronteira entre uma e outra. Notável. Para terem um exemplo, há uma cena na quinta temporada em que Dobrev interpreta três (!) personagens distintas na mesma cena, todas ao mesmo tempo, sem deixar que se confundam entre si. Brilhante. Nina Dobrev é, indubitavelmente, o grande trunfo da série e a maior razão do seu sucesso. As cenas mais emocionais, então, são autênticas pérolas para quem gosta de apreciar o trabalho de um actor; supera qualquer um dos seus colegas (eles próprios de grande qualidade) do elenco. Espero que, finda a série, saiba escolher os projectos certos, pois tem um talento fora do normal.

 

 

Katherine: Do you honestly believe that I don’t have a plan B? And if that fails, a plan C, then a plan D, and… you know how the alphabet works, don’t you?

 

O outro grande talento — i.e. com potencial para ser especial (agora pareço o FIFA) — que passou por TVD foi Malese Jow. A sua Anna conquista-nos, literalmente, à primeira cena. Divertida, um pouco dorky, absurdamente simpática e, como todas as personagens nesta série, com algo a esconder, entra directamente nos nossos corações — e no de Jeremy, é claro, sendo capaz de tornar a personagem mais apagada do elenco num dos grandes focos de interesse da segunda metade da primeira temporada. Anna tem a sua própria agenda, claro, mas nós crescemos e aprendemos com ela, rimos e choramos a seu lado. Sem dúvida uma personagem fascinante, atraente sem ser uma beldade (tem um rosto fresco pouco comum mas muito agradável) e extremamente bem escrita — porém, não nos iludamos: beneficia e muito do trabalho estupendo de Malese Jow. De facto, por essa altura, corremos (e não sou a única a dizê-lo) a ver cada episódio só para nos deleitarmos com o desenvolvimento da sua relação com o Gilbert mais novo; os poucos tomos sem ela ficam mais apagados. O trabalho da jovem americana de origens cherokee e asiáticas é, hands down, assombroso.

 

Damon: I look at you and I see myself. A less dashing, less intelligent version.

 

De uma perspectiva mais “fria” e técnica. A fotografia, sem ser estonteante, é bonita e tem cores muito próprias. A maquilhagem e efeitos especiais básicos (especialmente no que toca ao aparecimento dos traços vampíricos no rosto das personagens — ver a imagem abaixo) está excelente e a banda sonora é algo de extraordinário. A relação entre Elena e cada um e ambos os irmãos (não só em termos românticos, como de amizade e confiança) é o coração da série, que nunca se coíbe de adoptar uma vertente muitas vezes cómica, sopesando-a perfeitamente com os seus momentos mais dramáticos e intensos. A cereja no topo do bolo é o delicioso tom gore que pinta cada cena, com laivos de sensualidade sempre nas medidas certas. Para isso, claro, contribui a estonteante beleza de (quase) todos os intervenientes (ou não fosse a série da CW). Aliás, o material publicitário é o exemplo ideal do referido equilíbrio perfeito entre o cómico, o sexy e o sangrento.

 

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Todavia, nem tudo são rosas para The Vampire Diaries. Se as primeiras três temporadas são impressionantes, a quarta desce um pouco o nível, com óbvios problemas lógicos e narrativos (e estamos a falar de uma série com bruxas, lobisomens e vampiros), ainda assim perfeitamente desculpáveis. Já a quinta temporada tem sido, até agora, uma desgraça. Não vou mentir: a partir do momento em que percebi que a série estava perdida, estabeleci como marco os cem episódios. 500 Years of Solitude foi o espelho deste quinto ano: prometeu mundos e fundos e deu-nos uma valente decepção. Elena, a grande protagonista, tem perdido peso e é uma sombra de si mesma — aliás, o traço que melhor a definia e a mantinha profundamente humana era a sua força de vontade e capacidade de fazer as suas próprias escolhas, algo que parece completamente perdido, pois os irmãos Salvatore tomam agora todas as decisões por ela. Katherine, o maior destaque das anteriores quatro temporadas, parecia ter encontrado um rumo fascinante (em que poderíamos explorá-la mais profundamente num plano psicológico e “humano”), mas os argumentistas desperdiçaram o que poderia ter sido um arco maravilhoso com aquilo a que, num vocabulário mais simples, se pode chamar uma grande treta. Damon, o bad boy com coração de ouro e de longe o mais interessante dos irmãos, é agora um perfeito idiota. E Stefan, o “cavaleiro andante”, está a mãos com demasiadas más decisões narrativas para se poder preocupar com ser um dos três protagonistas. Caroline parece ter voltado ao seu “eu” da primeira temporada. As histórias são ridículas, os vilões zero, os arcos inexistentes, o romance estupidamente cheesy. And so on and so on… and so on.

 

Stefan: Why are you back in town?

Katherine: Three reasons: you, you, and you.

 

Concluindo: não é a melhor série de sempre nem nada que se pareça, mas as primeiras três temporadas de The Vampire Diaries são obrigatórias e a série não fica completa sem se ver a quarta. Não desperdicem o vosso tempo com a quinta. Uma série que nos deu episódios tão fantásticos como “Blood Brothers”, “Masquerade”, “Katerina”, “The Sun Also Rises”, “As I Lay Dying”, “Heart of Darkness” e muito mais não merecia acabar assim. Elena e companhia ainda têm oportunidade de provar o seu valor por pelo menos mais uma temporada, mas não me parece que o cenário melhore. Não me importo de ignorar certas ocorrências do ano quatro do programa para preencher o meu quadro em pleno. A partir daqui são só spoilers: para mim, Jeremy fica morto, Bonnie consegue aprisionar Silas (hence no final Stefan-Silas showdown), Katherine paga por todas as suas maldades ao tornar-se naquilo que mais despreza, uma humana, Stefan parte ao saber que é o irmão preterido e Elena encontra por fim a felicidade junto de Damon. The End.

 

Katherine: How’s John? Were they able to sew his fingers back on?

 

Esta é a história de uma rapariga que lutou com todas as suas forças por se manter humana, mas como a mãe vaticinara, devido à presença dos dois irmãos na sua vida, não conseguiu. E ao não conseguir manter-se humana, tornou-se inevitavelmente uma pessoa diferente. A Elena humana, com tudo o que isso acarretava, escolheria sempre Stefan. A Elena vampira, por tudo o que tal significa, escolherá sempre Damon. O que é irónico, dado que foi o facto de, enquanto humana, ter escolhido Stefan e não o irmão que a levou a tornar-se vampira. Ou seja: com os dois Salvatore, Elena estaria sempre destinada a perder a vida. A única maneira de viver seria… na morte.

 

Elena: I was ready to die. I was supposed to die, I don’t… I don’t want… I can’t be a vampire!

 

 

“… At least I was.”

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