Faking It: da série a uma reflexão sobre a sexualidade

Vou ser brutalmente honesta: nunca tinha torcido por um romance entre duas personagens do mesmo sexo. Porquê? Não por causa da sua orientação sexual, mas porque, para mim, havia sempre pares mais apropriados para as mesmas ou porque os casais em si eram irritantes. Tudo o que importa para mim são as personagens e a história, o retrato de pessoas “reais” com sentimentos reais, tão palpáveis que nos relacionamos com elas. E de repente, Faking It apareceu no meu ecrã.

Simplificando, Karma e Amy são melhores amigas num liceu em que o LGBTQ reina e as queen bees são renegadas e, após um mal-entendido em que toda a gente fica a pensar que são o primeiro casal lésbico da escola, decidem aproveitar os privilégios do novo estatuto de populares e fingir que são efectivamente lésbicas. Ou melhor: Karma está a fingir… Já Amy não tem tanta certeza, pois após um beijo só para o espectáculo, começam a surgir sentimentos de que não estava à espera. Uma série fraca, mas que tem no romance principal o seu ponto mais forte.

Rita Volk é um achado. Enche-me de felicidade o facto de pequenas séries de televisão ou filmes conseguirem encontrar actores talentosos desconhecidos, estes capazes de elevar a qualidade do material que lhes é fornecido. Ressalvando a óbvia diferença de dimensão e currículo entre os seguintes nomes, Dylan O’Brien, Julianne Moore, Jennifer Aniston, George Clooney, Malese Jow (ainda estou à espera do papel que a lançará para a ribalta), Nina Dobrev, Marisa Tomei, Meg Ryan, Kevin Bacon, Susan Sarandon, entre muitos outros foram descobertos pela televisão. E agora, Rita Volk. O resto do elenco (excepto Gregg Sulkin, muito bonito mas péssimo actor) tem qualidade, mas Volk é de outra dimensão. Do episódio 2 em diante, torna-se a grande mais-valia do programa.

O que me fez então torcer por estas personagens que não me fez torcer por outros casais do mesmo sexo? Antes de mais, a naturalidade. Todos esses pares sempre me pareceram tão forçados, tão empurrados pela garganta abaixo, tão “vejam, temos um casal gay!”, que não conseguia evitar não gostar deles. Karma é uma idiota, no entanto, revela a sua melhor versão quando está com a melhor amiga. E Amy… é fantástica. Que personagem tão likable relatable. É tão humana, tão natural e tão… normal. Não é masculina (um pouco maria-rapaz, mas nunca efectivamente masculina) ou histérica (estou a olhar para ti, Kurt) ou escrita de acordo com quaisquer estereótipos gay/lésbica que vemos usualmente representados no ecrã. Por isso mesmo, e porque lhe dói perceber que está apaixonada pela melhor amiga e a forma como os seus olhos sofrem a cada machadada infligida pelo egoísmo de Karma, é para nós extremamente fácil gostar dela. Relacionarmo-nos com ela. Criar empatia. Apoiá-la. É essa a chave para esta relação: apoiamos a Amy e, por isso mesmo, queremos que ela seja feliz. E o que é que a fará feliz? Estar com a melhor amiga para o resto da sua vida. Assim, torcemos por que esta relação funcione.

Obviamente, Karma’s a bitch (o timing dessa fala foi perfeito). Contudo, através dos olhos de Amy — e isso é crucial, pois apesar de haver duas personagens principais, os argumentistas e realizadores posicionam-se sempre do lado da Amy, sobre o ombro dela, vendo o mundo como ela o vê, e só uma grande actriz como Volk é capaz de oferecer à cena tudo o que é necessário e fazer-nos observar tudo desde o seu ponto de vista —, vemos o que de melhor há nela e uma pequena esperança de que talvez, só talvez, ela possa um dia reciprocar os sentimentos da sua melhor amiga. E que é apenas uma “f*cking teenage girl” que comete muitos erros mas nunca tem intenção de ser má. Porque Amy vê isso, não importa quantas vezes seja destroçada pelas acções de Karma, porque sabe e ama e, mais importante, faz-nos acreditar nisso.

Porém, para mim, o factor determinante é que não importa se são homo, hetero ou bissexuais. Da forma como o romance está escrito, são apenas duas pessoas que partilham uma ligação muito próxima e especial e subitamente, uma apaixona-se pela outra. Seja entre raparigas, rapazes ou um rapaz e uma rapariga. A grande questão é: isso importa? Não! É por isso que torço por elas, porque pela primeira vez (importa referir que nunca vi Buffy), vejo um casal do mesmo sexo simplesmente como um casal e não como um casal “vejam, é um casal do mesmo sexo”. Os argumentistas não estão a vangloriar-se por isso, estão apenas a escrever uma bela história de amor que, por acaso, é entre duas raparigas. E daí? São pessoas. Todos temos o direito de nos apaixonarmos por quem quisermos.

Para mim, tem tudo a ver com a personalidade. Posso sentir-me fisicamente atraída apenas por homens, mas não posso garantir que nunca considerarei a personalidade de uma mulher tão fascinante que acabe por me apaixonar por ela. Está tudo relacionado com as pessoas e com quem elas são, não o que são. Pela primeira vez, não vejo duas personagens catalogadas como “casal lésbico”. São apenas catalogadas como “casal”. E é isso que é tão tocante e genuíno em Faking It: Amy é somente uma rapariga que se apaixonou e Karma é somente uma rapariga por quem alguém se apaixonou e que possivelmente até corresponde tão belos sentimentos.

Amy ama Karma porque ela é Karma, não por ser uma rapariga. Karma poderá amar Amy porque ela é Amy, não por ser uma rapariga. Vêem? É por isso que funciona. Estou cansada da rotulagem  constante e da vanglória acerca disso. Claro que a atracção física entra sempre em jogo e uma pessoa pode sentir-se mais atraída, desde logo, a homens ou mulheres, mas não é isso que realmente importa. Parem de discriminar tudo e mais alguma coisa, parem de nos definir como gay, lésbica, bi, hetero ou o que seja. Parem de dizer “casamento” e “casamento gay”. Pelo que sei, a Ellen DeGeneres não gay estaciona o carro ou gay apresenta um programa. Ela apenas estaciona o carro e apresenta um programa e está casada com a mulher que ama. Não somos definidos pela nossa sexualidade, mas sim por quem somos. Não somos bi, gay, lésbica ou hetro; somos pura e simplesmente pessoas. E é isso que todos deviam compreender — foi isso que Faking It finalmente me fez compreender.

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