Até que o sangue deixe de correr

África. Génese do Homem. Génese de nós. Cantiga da adolescência humana, poema ao nosso lado mais selvagem e visceral. Rosto do passado, ferida do presente. O que antes foi e já não é. O que possivelmente nunca voltará a ser.

África é o berço do Homem, a sua terra correndo nas nossas veias. Porém, hoje não mais é que o recipiente da vilania humana, o purgatório na Terra, o calvário do mundo. Como o adolescente renegado e ostracizado na escola, que chega contendo as lágrimas a casa e, por fim permitindo que toda a sua negra revolta flua, pega na lâmina e acaricia a pele palpitante de medo. Lágrimas rubras deslizam sobre a seda já vincada por outros tantos dias de opressão e sofrimento. Isto é África. Quanto tempo até que o corte seja um dia demasiado profundo e o sangue deixe de correr?

O ocidente, o “mundo moderno”, apenas se importa com os profundos problemas de África quando estes o afectam directamente. Há, de facto, frequentes missões de ajuda na terra-mãe, procurando levar água, comida e outros artigos que para nós são parte do dia-a-dia e para eles constituem um privilégio. Muitos, infelizmente, fazem-n0 pela reputação – mas ao menos fazem-no efectivamente. As minhas palavras de admiração a quem o faz pelo simples prazer de ajudar os mais desfavorecidos.

Contudo, não é do indivíduo ou da pequena instituição que falo quando desdenho a apatia ocidental em relação ao continente das nossas raízes. Falo, sim, das grandes instituições, das empresas, dos governos, da imprensa. Surgiu o Ébola e, de repente, todos se lembraram de que África existe. Ainda para mais, não foi uma lembrança pacífica, feliz e de sorriso nostálgico desenhado pelo pincelar aberto dos lábios. Muito pelo contrário. Foi medo, pânico, terror. “Afastem-nos, tirem daqui essa fonte de doença e perdição!” As notícias disseminam-se, sobre todo o homem branco que pode ter adquirido a doença, nunca sobre o jovem ossudo de pele retinta que está às portas da morte. Apenas nos falam dele de um ponto de vista negativo. A criança que, tivesse ela casa e um quarto e lâmina para o fazer, rodaria a chave na fechadura e acariciaria a pele com uma rosa de pétalas cor de prata. Até que o sangue deixe de correr.

Este é o berço da Humanidade. O berço do mundo como o conhecemos. O berço de nós. Estamos a deixar as nossas raízes morrer, espezinhadas e sem água para beber. O sangue vai correndo pelas feridas que o Ocidente crava nos frágeis pulsos de África, como pequenos fragmentos do diamante que nos criou. Sorrimos, indiferentes ao destino deste jovem indefeso que vai perdendo vida a cada corte. Até que o sangue deixe de correr. Só aí compreenderemos que este é um destino que nos afecta, pois tal como a árvore, também nós pereceremos sem as raízes que nos alimentam.

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